06 junho 2008

E quantas lágrimas mais?






Demorei um pouco para me recompor.
Absorto em meus pensamentos tudo parecia silenciosamente dilacerar-se diante de mim.
As paredes e o chão, outrora tão incrivelmente sólidos, tão incrivelmente reais,
Eram agora como a incompletude perfeita da minha existência...
Vazios...

E eu me sentia como um ser sem existência,
Se é possível a um homem descarregar toda a sua consciência no nada, eis que o fiz...
Dei um salto sobre mim mesmo, escapei dos mais tristes labirintos de minha alma
E me perdi...
Onde estava eu que não mais em ti?
Não meu corpo que suspirava às graças de um pretenso gozo por ti proporcionado,
Que tremia gélido em cima de teus seis nus.
Onde estava eu que não mais em ti?

06/06/2008

16 abril 2008

Canção Febril


“No amor basta uma noite para fazer do homem um deus.”

- Propércio.

Cesso por um instante meus afazeres para dedicar-me um pouco a ti, mulher tão complexa e inexplicável que até aos deuses faz-se irresoluta, que corrói minha mente com seus mistérios e enigmas indecifráveis; mulher cuja qual os poetas entoam os cantos e a filosofia denota preocupação, és o maior enigma do mundo mulher!, és o rebento da união de todas as divagações humanas com os suspiros de sua dor, és tão carnal e tão pura que se tornas luz.

Qual Da Vinci não inveja os contornos de teu sorriso a gritar de despeito que suas obras trazem mais mistério? Passeias pela História amedrontando os homens que menos temem a morte que o teu olhar. Inspiras literatos, loucos, profetas, mágicos, vilões e não és mais que sombra, delgada e furtiva. Pensas que me enganas com teu dissimulado amor? Não!, sou fugitivo de mim mesmo e tento te esquecer pois és uma esfinge que tem para mim voltada a face no intuito de devorar-me a alma. Mas teus beijos... Ah! Que me esqueça de todos! E na impossibilidade do esquecimento que me tirem a vida por misericórdia, caso seja insuficiente, que me vendam o espírito, joguem sal à minha terra, esquartejem meu corpo e espalhem suas partes onde teus pés pisarem, assim poderei me ver livre de ti.

Quantos Césares não choraram a desgraça que a eles acometeste? Sou mais um, encantado por teus olhos egípcios, por tua boca silenciosa e ardente, por teus gestos leves e lânguidos, pelas noites de volúpias ingratas despejados no mar de meus brados incompreensíveis. Sou mais um, ludibriado pela lua lépida que mascaraste no teu céu de impossibilidades cujo qual tomei por real. Nunca saberei se fostes minha, pois nunca nem eu a mim mesmo pertenci.

Mas e o sangue derramado por ti? As lágrimas vertidas dor? Os suores nos falsos leitos de prazer? Quem trará a paz em peito repleto de tormentos, quem pagará a conta dos danos que me cobra a vida? Não te encontro mais. A alcova vazia, os vestidos jogados ao chão, teu perfume ainda impregnado em minha roupa – tudo é enlouquecedor. Assim a intolerância do tempo torna-se cada vez mais torturante, os segundos marcados de desalento choram tua ausência e meu peito febril urge por sossego.

Já ouço o fero canto do inferno com prazer, este que desvanecida não relutas em soprar, enxertando em minhas entranhas o rubro logro de teu quimérico amor. Mas não te quero! És hoje devaneio e outrora não fostes mais real. No entanto, espero o assomo de teu corpo qual Lázaro para que eu possa voltar de meu senil degredo, onde de tão terrível a morte corre atordoada. Espero, com o ardor de um assassino, com o desejo vibrante de uma virgem, assim espero teu regresso. Não sei se para velar teus seios ou decepá-los; nem sei se para colher teu suor ou teu sangue.

Tu, que por amar a arte tão loucamente deixava-me enciumado; a aura febril que vinha encobrir nossas noites veladas por prazer era de cores tons e combinações que artista algum foi capaz de reproduzir. Teus suspiros sinfônicos, repletos de uma harmonia divina, eram deliciosos. Ah! O que tem o sexo e a arte para assim ludibriarem a alma do homem? Há uma fuga do real qual o nirvana, somos tragados do mundo e jogados a uma nova dimensão totalmente dispersa e mística. E tu, que por tantas luas ao meu lado dormiste, eras a ninfa inspiradora desses dois grandes dons presenteados à humanidade.

A fábrica começa a buzinar, esvai-se tua imagem em meus pensamentos, fecho o livro, o afã é meu destino, tu és minha graça e meu sofrimento. Enquanto não vens, caminho só.

Paulo Fernando de Lima Oliveira 10/02/07

11 fevereiro 2008

Canção das cinzas da quarta-feira





















É quarta-feira
E Momo vem despedir-se.
Os clarins são mudos,
O Pierrot é triste.

Vi teu olhar de minha janela,
Olhos ciganos a balançar.
Desci correndo, larguei-me à festa;
E não estavas mais lá.

Chorei sentado, desiludido,
Esperança morta é o suspirar.
Tocou-se um frevo e entorpecido
Fiquei em pé para dançar.

Pulei revolto, alegremente,
Como um menino que quer brincar.
E o meu olhar, ainda carente,
Procurava o teu olhar.

Saí cantando sozinho,
E minha voz a se mesclar
Com tantas outras pelo caminho,
Sem encontrar sincero par.

Ouve o silêncio? Agora acabou.
Todos já foram descansar.
Tudo é vazio e o que restou?
A solidão a me velar.

Meu coração indesejado,
Lamenta solto sem êxitar.
Sou um amante inconformado
Que nessas ruas pôs-se a cantar.

-É quarta-feira
E Momo vem despedir-se.
Os clarins são mudos,
O Pierrot é triste.

Paulo Fernando de Lima Oliveira

14 setembro 2007


Teoria da efemeridade do amor


“Se queres sentir a felicidade de amar, esquece tua alma,
A alma é que estraga o amor.[...]
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”
-Manuel Bandeira




Perguntas se te amo e queixas-te de eu não te responder.
Espera...
Talvez na aurora de amanhã,
Talvez no entardecer de um dia que nunca nascerá.
-Mas hoje não!
Hoje não quero te dar respostas,
Mas sim beijos;
Nem quero ouvir-te indagações
Prefiro sussurros.

Deixe as nossas almas mudas
Pois elas têm a eternidade
A nós, só resta o momento.

Paulo Fernando de Lima Oliveira